Quero ser livre! Estou disponível para Ti...
Muitas vezes ouvimos a expressão: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.” Mas que grande injustiça. Será que só porque algumas pessoas têm melhores condições de vida que outras, nunca poderão alcançar o Reino de Deus? Será que pelo facto de termos alguns bens materiais, que nos proporcionam mais conforto, estes podem impedir-nos de entrar na lógica do Reino e Deus?
Não, não pode ser. O Deus revelado em Jesus de Nazaré não quer que a nossa vida seja má, não quer que passemos dificuldades. Ele apenas deseja a nossa felicidade.
Por isso, ao ouvirmos esta expressão tão usada pelo povo, lembramo-nos do encontro do jovem rico com Jesus (Mc 10, 17-22). Lembramo-nos do entusiasmo momentâneo desse jovem quando correu ao encontro do Bom Mestre e ao ouvir as suas palavras «ficou de semblante carregado e retirou-se triste, pois tinha muitos bens...».
Mas que riqueza teria este jovem? Será que ele era mesmo muito rico?
A riqueza na Bíblia não é uma questão de bens materiais, mas sim de não sermos livres diante deles. Por isso, este jovem rico é todo aquele que está aprisionado a todos esses bens, é todo aquele que coloca neles a sua segurança e a sua felicidade. Os pobres são os livres, são todos aqueles que não estão aprisionados a esses bens materiais, são todos aqueles que são capazes de abdicar do que possuem. São os disponíveis à partilha. Imagem bem diferente das que estamos habituados a utilizar.
Este jovem rico, que se manifestou extremamente entusiasmado aquando corria ao encontro de Jesus, rapidamente mudou de cara e entristeceu-se. Pois, Jesus, o Pobre de Nazaré, rosto visível do Deus Amor, colocou em risco a sua riqueza, a sua suposta segurança e felicidade. Este fez-lhe o convite a ser mais... a viver movido no Deus Amor, deixando de estar sujeito à lógica das recompensas ( eu faço isto, logo...). Mas isto é muito difícil. É bem mais fácil seguir um “deus” que apenas nos pede o cumprimento de uns quantos mandamentos. Estes “deusitos” nunca colocam em causa as nossas “riquezas”.
O jovem rico é aquele que corre ao encontro, se ajoelha e questiona Jesus, é aquele que se entusiasmou com a novidade das Suas palavras, com a força dos Seus gestos, com as Suas atitudes... Ele corre, mas não se deixa encontrar, pois continuava a viver na lógica das leis judaicas e dos mandamentos da antiga Aliança, vivia na lógica do “toma lá, dá cá”, do que devo fazer para receber. Mas, dentro dele faltava algo... corre para Jesus, para lhe pedir mais uma lei, mais uma peça “para manter a sua engrenagem”. Então, Jesus pede-lhe que mude de lógica, que mude o seu coração, que passe a viver ao jeito da vontade de Deus e mostra-lhe como: «Jesus fitou nele o olhar, sentiu carinho por ele». Jesus mostrou-lhe o Amor e só porque o ama pede-lhe para ser mais... para ser Livre. Pede-lhe, não para cumprir mais uma lei, mas para seguir uma pessoa: «Vem e Segue-me». Pessoa que está sempre a caminho e nos coloca a caminho consigo. Jesus pede-lhe para se desinstalar, que tenha coragem de arriscar ser Livre e ser Feliz.
Só que este jovem rico era possuído por muitas coisas, estava possuído por uma segurança e por uma felicidade escravizante. Por isso, faz contas de cabeça e o seu entusiasmo não passou de um momento. Não se deu conta que só possuímos aquilo de que somos capazes de abdicar, caso contrário, somos nós os possuídos. Não será este o nosso erro... Então «o homem ficou de semblante carregado e retirou-se triste, pois tinha muitos bens...»
Em vez de um encontro entusiasmante, temos um desencontro carregado de tristeza. O desencontro com Jesus é sempre fonte de tristeza, porque ao não acolhermos os seus apelos fechamo-nos ao melhor de nós próprios.
A história deste jovem rico, de quem nem sequer sabemos o nome, é diferente de todas as histórias que costumamos idealizar, não tem um final feliz. “Porque em nome dos bens que tinha, recusou o melhor que o esperava...”