Ver para Caminhar e Caminhar para Ver!

"Cura do cego de Jericó" (Mc 10, 46-52)

Jesus vai a Caminho! Sempre a Caminho... E com Ele os seus discípulos, os que andam a Caminho com Ele, e a multidão, que nos evangelhos representa aqueles que O acompanham uma temporada mas não se colocam verdadeiramente a Caminho com Cristo, ou seja, não o assumem como Caminho! A multidão é a inconstância de caminhos. De facto, no meio da multidão ninguém escolhe para onde vai! Todos são arrastados. Num dia podem deixar-se arrastar por Jesus, mas noutro dia deixam-se arrastar por outro “mestre” qualquer que passe pela zona e, no fim, bem o sabemos, a multidão deixou-se arrastar pelos fariseus, doutores da Lei e sacerdotes do templo para gritar: “Crucifica-o! Crucifica-o!”

Jesus ia a Caminho com os seus discípulos, e passaram por Bartimeu, que estava “à beira do Caminho”. Era cego e mendigo. Mas qual era de verdade a sua cegueira, e qual era a sua pobreza? No fim deste relato, Bartimeu deixou de ser cego porque se encontrou com Jesus, e deixou de ser mendigo porque Jesus lhe deu um Caminho. Sim, Jesus não lhe deu uma esmola, mas um Caminho! Bartimeu era mendigo de um Caminho de ser e viver, faminto de um Sentido para a Vida, como nós tantas vezes...

Nesta pobreza de caminhos, nesta mendicância de sentidos, também nós muitas vezes nos sentamos “à beira do Caminho” recebendo de quem passa por nós as suas esmolas. Estas esmolas vêm de muitas formas: bons conselhos, receitas, “eu no teu lugar...”, “se fosse eu...”

Quando nos sentamos “à beira do Caminho” muitas vezes não recebemos mais nada senão as esmolas dos moralismos daqueles que por nós passam, os que connosco vivem, às vezes cheios de boas intenções mas que deviam perceber que o acolhimento silencioso do outro pode fazer nele maravilhas!

Jesus não dá esmolas a Bartimeu, mas uma nova Visão e um novo Caminho. Como a nós. Pela Sabedoria que em nós inspira o seu Espírito Santo, Jesus possibilita-nos Ver e Caminhar ao seu jeito. É o dom maior de Jesus Ressuscitado na nossa história.

O encontro de Jesus com Bartimeu é uma história de Fé. Bartimeu, “à beira do Caminho”, tinha “ouvido dizer” que era Jesus quem ia a passar. Não o conhecia, não o tinha escutado, não estava sequer a Caminho com Ele, ainda era cego porque ainda não o tinha visto. Mas “ouviu dizer” não lhe chegou. Infelizmente, a muitos parece que chega... Por isso chamou por Ele! Chamou-o como dele ouvia falar: “Filho de David”, Messias do meu povo! Era assim que falavam dele, era assim que Bartimeu o conhecia.

Jesus é a Revelação e Realização máxima do Amor do Deus que “escuta, pára e chama” à intimidade consigo. Tudo está preparado para o encontro da transformação, tudo está a postos para o renascimento de Bartimeu. Mas... Bartimeu ainda tem um caminho a fazer antes de se pôr a Caminho para Cristo, para depois se pôr a Caminho com Cristo: o caminho das provações e das mediações. “Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais alto”. A perseverança é um dos segredos para acontecer o encontro com Cristo, porque serão sempre muitas as vozes – sobretudo interiores – a mandarem-nos desistir e a ficarmos resignados nas nossas cegueiras e mendicâncias à beira do Caminho. Nas provações e lutas interiores da Fidelidade, a Fé torna-se mais forte que o medo, e quando isso acontece não tarda que apareçam também aqueles que nos ajudam nos nossos encontros com Cristo, aqueles que são dele mediação e instrumento para apoiar a nossa decisão de sermos Felizes, Vendo e Caminhando com Cristo.

“Coragem, levanta-te, porque Cristo chama-te!”, é o apelo do Espírito Santo em nós, através de muitas pessoas, situações, encontros e acontecimentos da nossa vida. O Espírito e Jesus Ressuscitado é permanentemente no nosso Coração alento de coragem para nos levantarmos das nossas prostrações e reiniciarmos Caminho a partir do chamamento de Cristo.

Bartimeu percebeu que tudo estava prestes a mudar... “Atirou fora a capa”, que era o sinal de mendigo! Acabou-se a mendicância: quando Jesus o chama, percebe que não precisa de receber mais nada de mais ninguém! È o primeiro sinal da sua libertação, este despojar-se dos seus trapos. Num pulo, saltou-lhe ao encontro, e escutou dos seus lábios a pergunta mais esperada. Porque nos conhece, Jesus faz sempre as perguntas certas, aquelas que precisamos de ouvir para percebermos o que é importante, o que é preciso responder. E as respostas que ele nos pede não são umas palavras que se dizem, mas decisões que se assumem...

“Mestre, eu quero Ver!”

Jesus já não é simplesmente “o de Nazaré”, o “filho de David” de quem Bartimeu tinha ouvido falar à beira do Caminho. Agora, está no Caminho com Ele, de pé, sem trapos de mendigo, cara-a-cara, a tratá-lo por Mestre. Como tudo pode mudar quando não nos contentamos com o que “ouvimos dizer”...

A experiência da Fé em Jesus como Messias de Deus confere àquele que a faz a nova Visão possibilitada pela luz do Espírito Santo e pelos critérios da Palavra de Deus. Ao abrir os olhos, Bartimeu não viu um Caminho! Percebeu que Jesus o fazia Ver para Caminhar, Ver para Viver, Ver para Ser!   

Por isso, aquele que antes estava preso “à beira do Caminho”, preso na sua cegueira e na sua mendicância, fez a experiência de ser livre: “Jesus disse-lhe: Vai!”. Mas Bartimeu iria para onde?! A cura da sua cegueira estava naquele Caminho! Se fosse por outro caminho, acabaria por recair na cegueira de não Ver onde caminhar até se sentar de novo à beira de um caminho qualquer mendigando caminhos novos...

“Bartimeu seguiu Jesus pelo Caminho”, porque não há outra maneira de ser verdadeiramente livre de todas as mendicâncias e são de todas as cegueiras.

Ver para Caminhar e Caminhar para Ver!

Ver ao jeito de Jesus para Viver ao jeito de Jesus!

O Espírito Santo é a Luz da Visão Nova que nos faz Ver como Jesus, e é a Sabedoria  da Vida Nova que nos faz Viver como Jesus.

E tudo isto se faz a Caminho...

Rui Santiago cssr

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