Lógica do Amor Crescente
"Amas-me? Segue-me!" (Jo 21, 15-19)
Imagino sempre o rosto paciente de Jesus repetindo o “Amas-me?” quase soletrando bem o que lhe estava a pedir. E dou-me conta de que também é quase sempre assim connosco: há uma grande distância entre as Propostas e as Respostas na nossa relação com Deus.
E nem outra coisa podia acontecer, porque Deus sonha e chama para o melhor da vida aqueles que ainda estão a construí-la! Deus nunca “sonha pequeno”, quando se trata de nos amar... Deus sonha sempre “em grande”, quando está em causa a “menina dos seus olhos”! Por isso vivemos serenos com Deus, mesmo não respondendo “na mesma moeda”, porque Deus só nos pede que respondamos “na nossa moeda”. Sim, “amor com amor se paga”, mas o nosso amor em construção não pode responder ao Amor em Plenitude de Deus sem ficar “curto”. E Deus permanece sereno... e nós também devemos aprendê-lo...
O Deus revelado em Jesus de Nazaré não é um “moralista divino” a colocar-nos fasquias que temos que alcançar, medidas e normas vindas de cima e que nos esmagam com as suas exigências. DEUS È AMOR, e todo o Seu diálogo connosco acontece na densidade amorosa do Espírito Santo que em nós diz a Sua Palavra, sem imposições. Por isso, Jesus de Nazaré, o Ressuscitado, não se “zanga” com Pedro por este não conseguir ainda responder ao “Amas-me?” com um “Amo-te!” à medida. DEUS È PACIENTE, e o Seu Messias è disso revelação. Na Bíblia, a Graça de Deus explica-se como a atitude de Deus que se “baixa”. O Deus-Graça é o “Deus que se debruça”, o não-pretensioso, não-vaidoso, não-distante. Aquele que se debruça até se tornar “Emanuel, Deus connosco”! Em Jesus de Nazaré, o Deus a quem nos habituámos a chamar Altíssimo, revela que, afinal, Ele prefere ser o Deus-Baixíssimo, o Deus connosco e entre nós, o Amor que permanentemente “vem para servir e não para ser servido”, o Amor que nos “lava os pés” para nos pôr sempre a caminho na Vida de maneira nova. Por isso, Jesus “baixa a fasquia” da Proposta a Pedro. À terceira vez, não continua a insistir no “Amas-me?”, e pergunta-lhe: “És meu Amigo?”
Em vez de “puxar Pedro por uma orelha” para o pedestal altíssimo da sua Pergunta, Jesus “baixa” ao nível da sua Resposta. Deus não desiste de nós, mas também não nos impõe o impossível! O Amor de Deus nunca nos deixa de nos fazer crescer, inspirar a conversão e animar mudanças, mas nunca o faz pelo caminho da opressão ou da ameaça. Deus aceita o que somos, assume-o e consagra-o, para que venhamos a ser mais. Por isso, o Amor de Deus acontece no nosso coração como um permanente “Segue-me!”
Para quê? Para que cheguemos a amar mais e melhor, mais à medida de Deus que é “Amor sem medidas”, para que cheguemos a aproximar cada vez mais as nossas Respostas às Propostas que Ele nos faz.
Deus introduz-nos na LÓGICA DO AMOR CRESCENTE. E é neste Amor Crescente que a nossa Vida se vai recriando, como Pedro se recriou das três negações. É sempre no Amor que Deus nos refaz. “Junta os nossos cacos” e molda-nos de novo com o Seu Sopro de Vida e a Sua Palavra que se torna Caminho cheio e Sentido para continuar a caminhar. Abrir-se ao diálogo íntimo com Jesus Ressuscitado, o Messias de Deus, é abrir-se ao perdão, à libertação, à cura interior dos nossos mais escondidos medos e memórias. Sim, precisamos sempre e um Amor maior que tudo isso para que nos encontremos mais livres e leves.
Além disso, abrir-se ao diálogo íntimo com Jesus Ressuscitado, é deixar-se configurar pelo Espírito à sua imagem e semelhança. Tornamo-nos continuadores da sua Missão, prolongadores da sua Passagem Libertadora, testemunhos da sua Presença. Por isso Jesus pede a Pedro que “apascente as suas ovelhas e os seus cordeiros”. Ele que disse, “Eu sou o Bom Pastor!” (Jo 10, 11), confia a Pedro a missão de continuar a explicitar o seu Amor de Bom Pastor, aquele que “dá a Vida pelas suas ovelhas”, e dá Vida às suas ovelhas! Pede-o a Pedro, como o pede a nós...
“O Senhor é meu Pastor, conduz-me a pastos abundantes onde sacia a minha fome, e leva-me a nascentes de águas cristalinas onde sacia a minha sede” (Sal 23, 1-2).
O Bom Pastor é o que alimenta da Palavra e sacia com o Espírito Santo, nos pardos verdejantes ou nas escarpas mais agrestes da nossa Vida. E nós, seus Amigos, somos chamados a colaborar com o Pastor, dando testemunho da Palavra e tornando-nos instrumentos do Espírito. Esta é a Missão que brota do nosso “Amor Crescente” a Jesus. Até quando?... Até ao fim, até chegarmos à maturidade do coração, quando nos tornamos menos “senhores do nosso nariz” e, como Pedro, aprendemos a deixar-nos conduzir! Até que doa, se for preciso, até à morte! Porque já nem esta assusta os Discípulos e Apóstolos de um Ressuscitado. Afinal, VAMOS À MORTE, QUE A VIDA É CERTA...
Rui Santiago cssr